
No dia em que fomos buscar nossas filhas para um período de férias, enfrentamos uma viagem de três horas de ida e mais três de volta. O percurso, percorrido em uma estrada sinuosa que parecia não ter fim, foi marcado por uma mistura de medo, ansiedade e uma vontade intensa de chegar logo. Cada quilômetro percorrido intensificava o turbilhão de sentimentos que vivíamos.
Ao chegar na casa de acolhimento, fomos recebidos em um ambiente acolhedor, com uma pintura nova que dava para notar mesmo sendo noite e, para nós já era um ambiente “familiar” pois já estivéramos ali pelo menos três vezes. Lá, realizamos todos os trâmites necessários e recebemos orientações precisas, pois aquelas férias seriam o período de adaptação – uma espécie de “namoro”, como costumamos chamar no mundo da adoção – para que nossas filhas se acostumassem conosco.
O retorno para casa demorou outras três horas para nós, e, para elas, foi o início de uma nova etapa. Ao chegarmos em nosso lar, onde o ambiente estava cuidadosamente preparado – o quarto mobiliado, decorado com cores suaves, as camas impecavelmente arrumadas – a expectativa era grande. Nem tivemos tempo de desfazer as malas; a fome e a ansiedade pelo reencontro nos levaram diretamente à mesa.
Foi então que, num estalar de dedos, a ficha pareceu não ter caído completamente. Nosso coração apertou ao vermos nossa filha mais velha iniciar uma crise de choro, desejando voltar para o abrigo. Acabara de chegar, mas seu coração permanecia lá, entre os colegas e as lembranças. O medo do desconhecido apertava ainda mais seus sentimentos, e nenhuma de nossas palavras parecia capaz de acalmá-la.
Sem saber o que fazer, entramos em contato com a psicóloga da instituição. Após algumas orientações, nossa filha passou cerca de uma hora conversando com uma das cuidadoras do abrigo – um processo que se repetiu quase duas semanas inteiras. Dia após dia, a esperança do fim das férias era motivo de alegria, mas estar conosco também se transformava numa aflição que parecia interminável. Foi somente quando combinamos o retorno alguns dias antes do fim das férias que surgiu um certo alento. Suas irmãs, com a certeza de que não queriam ver aquele tempo chegar ao fim, deixaram claro: “Se quiser voltar, nós não iremos – você vai sozinha.” Nossa rede de apoio, sempre presente, nos passava estratégias que nos ajudavam a acertar os passos dessa nova fase.
O que realmente contribuiu para o desejo dela de voltar foi a dificuldade de encontrar espaço para seu coração. As irmãs mais novas, sempre em busca de atenção e carinho, disputavam entre si nosso colo e afeto. Em meio a tanta novidade, a filha mais velha não via brechas que a fizessem sentir-se, de fato, em um lar. Ver suas irmãs sorrindo e se divertindo a frustrava, pois sentia que precisava se moldar para encontrar seu próprio espaço e tempo. Em meio a tantos acontecimentos, esse detalhe passou despercebido e, por descuido, quase a perdemos para sempre.
Durante longas duas semanas, tentamos diversas abordagens até decidirmos, com as orientações recebidas, que não haveria mais contato com o abrigo por parte delas. Afinal, devido às crises, elas mantinham contato frequente com as tias que trabalhavam na instituição. Assim, começamos a inserir novas rotinas e, finalmente, alteramos o acordo de retorno, que era motivado por algo muito específico que nossa filha manifestava. Chegamos à decisão de respeitar a data prevista pelo Juiz.
No dia em que comuniquei que ela não retornaria antes da data legal, senti como se um tornado de categoria cinco tivesse invadido nosso lar. Em seu quarto, repleto de objetos que antes contavam histórias de um tempo no abrigo, ela expressou tudo o que guardava – ansiedade, medo, raiva, frustração e incertezas – espalhados em cada canto.
Após a calmaria, entrei em seu quarto e me abaixei ao seu lado, encontrando-a sentada na cama. Olhei fixamente em seus olhos e disse com toda a sinceridade do meu ser: “Você é minha filha e eu te amo; escolhemos te amar, e nada vai mudar isso.” Dizer essas palavras foi libertador, e daquele dia em diante, até a decisão que nos concedeu a guarda para fins de adoção, vivemos um processo de construção e aprendizado mútuo.
Não podemos deixar de destacar a participação fundamental da nossa filha de 9 anos, que, em determinado momento, intermediaram o diálogo para que a maior refletisse e optasse por ficar. Essa atitude foi um pequeno, mas decisivo, pedaço de uma jornada maior que nos fez, de fato, família.
Cada detalhe desse dia – a longa estrada, o ambiente acolhedor do abrigo, a preparação cuidadosa do nosso lar e, principalmente, o profundo turbilhão de emoções – se transformou em lição e memória. Essa experiência, apesar de difícil, nos ensinou o valor do amor incondicional, da paciência e da importância de reconhecer e acolher os sentimentos de cada um, para que, juntos, possamos construir um lar verdadeiro.
Essa é um pedacinho de uma fatia da nossa história de reencontro, de desafios superados e de amor que se reafirma a cada passo. E, acima de tudo, é um lembrete de que, mesmo nos momentos mais intensos e de incerteza, o laço familiar é capaz de transformar dor em esperança e construir o verdadeiro significado de ser família.
Agora, queremos ouvir você: quais foram os momentos marcantes em sua jornada familiar? Como o amor transformou sua história? Compartilhe suas experiências nos comentários e vamos construir, juntos, uma rede de apoio ei
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